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O auto ódio

Muitos pretos não se reconhecerão nessas linhas que se seguem.
Muitos brancos, igualmente.
Mas o fato que eu me sinta estranho ao mundo do esquizofrênico, ou do impotente sexual, em nada muda a realidade deles.

- Frantz Fanon in Pele Negra Máscaras Brancas.

Quando um branco relativiza o racismo, ou um negro, isso não muda o racismo estrutural que nossa sociedade enfrenta. Acreditar que questões raciais são apenas opiniões e vitimismo, é além de tudo falta de compreensão da realidade do outro e muitas vezes de si mesmo. Ouvir um negro dizendo que NUNCA sofreu racismo no Brasil, não anula os outros 99 que afirmam que sofreram, ouvir um negro afirmar que nunca se sentiu constrangido não anula todos os outros constrangimentos. Ouvir um negro se dizer pardo, ou até mesmo sem cor definida não anula a negritude que a pele dele exibe. O racismo nem sempre vem escancarado, nem sempre nós negros estamos isentos de sermos racistas com o outro e com nós mesmos.
A negação da negritude, da realidade do racismo faz parte de uma consequência da própria estrutura racista, onde nos induz a pensar que branqueando nossa vida, nossa mente, nossa vivência, iremos branquear nossa pele. E isso não é real, ser negro é marca de nascença que perpassa a própria vontade do indivíduo. Adaptar-se ao mundo branco e branquear sua própria identidade é inconscientemente a consequência mais devastadora do racismo, é o negar a si mesmo.
Em um país onde ser mais ou menos negro está inserido na nossa face, onde quanto mais preta sua pele mais racismo se sofre, fugir da negritude ainda é o processo mais escolhido por negros de pele clara e também negros de classe média, o dinheiro clareia, o cabelo se disfarça.
O mito da democracia racial traz sentido a negação, o auto ódio se alimenta, eu sou pardo, eu sou parda, se ecoa a palavra que serviu e serve de disfarce para o racismo que temos por nós e pelos nossos... Pardo é o símbolo do auto ódio, da negação de si perante a si mesmo.


Imagem retirada da página Kilombagem

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