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Dororidade - da palavra ao conceito.

Dororidade – Vilma Piedade (2017) 

Vilma Piedade é Filósofa, “Mulher Preta, Brasileira, Feminista. Mulher de Asé” e aquariana. A autora nos presenteia com um novo vocábulo e um novo conceito – Dororidade.  Dororidade é também o título do livro da autora que vem definir este e que foi publicado em 2017 pela editora Nós.
A autora inicia a obra com as contribuições de Lélia Gonzalez e do seu “pretoguês”, apontando também, que a “criação de um conceito envolve a relação linguística entre significado e significante” (p.12) e como essas relações linguísticas envolvem uma relação de poder e de “luta de classes”. Discorrendo sobre o papel dos filósofos em explicar o mundo, a si e a sociedade, o conceito dororidade é “parido”.
Etimologicamente o termo Dororidade nos lembra o termo Sororidade. Antes da definição particular e complementar de ambos os termos, Vilma nos coloca as limitações do feminismo que a princípio foi “perceber o movimento como um projeto único, moldado para a mulher branca, ocidental de classe média” (p.12) e que não se abre as demandas das mulheres negras e da classe trabalhadora. A década de 1980 é fundamental para mudanças e reivindicações dentro do pensamento feminista para a incorporação de um movimento que pense as formas de opressões de maneira interseccional, dando ênfase as especificidades de ser uma mulher negra em uma sociedade racista, sexista e classista e que tais opressões funcionam de forma concomitantemente.
Nesse cenário Sororidade termo presente no feminismo vem etimologicamente da relação de “irmãs” e busca impulsionar união e irmandade entre as mulheres enquanto impulsionador das relações entre mulheres. Mas, há um ponto que a sororidade não engloba... A dor... E como nos diz Vilma a Dor é Preta! E assim, um conceito precisa do outro.
Dororidade surge para essa suplementação. “Doridade, pois, contém as sombras, o vazio, a ausência, a fala silenciada, dor causada pelo Racismo. E essa dor é Preta” (p.16). A Soridade não dá conta de se explicitar a relação de mulheres que são perpassadas por esse silenciamento e as dores do machismo e do racismo. Carregamos na nossa pele a marca do racismo que permeia nossas vivencias e experiências e a dor tem um papel central nessas experiências.
A memória da dor, o cotidiano da dor vai marcar nossa subjetividade. A autora vai pensar também as relações da dor e também da resistência a partir da tradição e da nossa história. Os enfrentamentos contra as imagens pré-estabelecidas sobre nossos corpos, as forças ancestrais, a luta contra intolerância religiosa e também a luta para sair de lugares pré-determinados. Dororidade está relacionado a forma como lidamos com as opressões interseccionais e a forma como a aliança de mulheres negra se dá a partir desse reconhecimento dessa dor comum, de como estamos nessa sociedade e como nossas ancestrais nos fortalece para falarmos como Maya Angelou nos ensina “e ainda resisto”. É um suplemento a ideia de sororidade, é uma forma direcionada para mulheres negras compreenderem sua relação com o mundo. É um conceito que explica e define nosso ser, estar e resistir.

Bruna Santiago, 2019.
@leituraspretas .

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